sábado, 6 de abril de 2013

Eu estou tão doída e meu coração está tão triste!

Image from: sxc.hu


Vazões de Ampulheta

- Jacqueline Collodo Gomes

Eu estou tão doída e meu coração está tão triste!
Não, você não haveria de o prever.
É quase possível de se segurar nas mãos. Está se tornando matéria, partículas densas, pesadas, atraindo-se, homogenizando o cinza, massa-dor. 
Ai, peso infeliz! Sólido importuno! Ai, como queria passá-lo!
Como queria passá-lo, por mero presságio, por ponta não atingida! Como queria!
Como queria passá-lo, e nunca, nunca tê-lo registrado em vida!
Dor importuna, cruel, impiedosa atitude; duas vazões de ampulheta.
...
Ela se foi.


Do Outro Lado da Mesa

- Jacqueline Collodo Gomes

Você gostava de ver o movimento enquanto comíamos à mesa da praça de alimentação. Você gostava de provar coisas novas, pratos, sabores. Você segurava os talheres, mãe, de uma forma que eu nunca vou esquecer. Você gostava de falar das telas-vitrines, femininas atrações. Eu queria que você pudesse ter visto mais este dia. A luz do teu novo abrigo não se apaga, não se apaga em mim. É uma casinha quentinha e confortável, com o seu toque, como tudo de bonito que você sabia fazer. Mas eu não posso ir até aí pra visitá-la. E nem pra chamá-la para irmos à praça de alimentação uma outra vez, pra provarmos os sabores novos, os pratos mais bem elaborados e atualizados, para falarmos dos programas-vitrines desta última estação, ou com as faixas de promoção. E eu não posso mais te ver segurando os talheres, observando o movimento, o brilho da sua retina pensando, pensando, bolando a vida, o sapato, o batom, e essas coisas femininas. E nem mais ver o balanço do seu relógio tão querido, tão usado, que quase não saía do seu braço. E nem mais vê-lo combinando com as unhas, tão delicadas, miúdas, bem polidas.
Tantas vezes estivemos longe, mãe, na distância do entendimento, da palavra, e já era um pedaço puxado quase que totalmente de mim quando isto acontecia. Mas agora me arrancaram um pedaço. Me arrancaram um pedaço, mãe, desde que você não podia mais estar do outro lado da mesa, no reflexo ao meu lado na vitrine, nos projetos dos almoços de dia de festa, dos planos para surpreender os pequenos da família. Tem um túnel aberto onde ecoa o brusco arrancado, a garganta retorcida, e ele vem direto da vida na direção do meu peito, e é tão grande, mãe, este túnel, é um vácuo tão doído! E tanta coisa grita lá dentro! E tanta coisa faz silêncio e indiferença a esta existência também. Oh, mãe, eu só queria poder saber que um dia eu ia poder te abraçar a vontade, de novo, quando as desavenças rotineiras passassem, e que você ia estar ali outra vez, pra tomarmos um sorvete de casquinha, com as compras todas feitas, dando um tempo pra si mesma, um momento de partilha, antes do despedir de mais um dia.
Mãe, eu não queria passar nesse túnel. Eu queria te pedir: "Vem comigo, mãezinha", que eu tenho tanto medo! Mas é assim, quando a gente cresce, é a vida quem guia. Há estes túneis doídos para serem atravessados. Mas eles nunca vão me fazer esquecer de você, e da caminhada que fizemos juntas, embora agora me encaminhem a seguir sozinha.
Que falta de mãe, minha mãe! Que falta de ver seu relógio preferido no seu pulso, de novo!

06/04/2013, 03:42.

2 comentários:

  1. Que lindo Jaque...
    Sinto essa falta no peito...

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    Respostas
    1. Oi Sueli,
      Obrigada pela visita e comentário.
      Abraço de poesia.

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